A gaveta estava organizada demais para ser acaso. Entre pecas dobradas e perfumes antigos, a camisola preta ficou por cima, como um recado sem envelope.
Marina tinha escolhido aquela peca no fim da tarde. Nao queria impressionar ninguem alem de si mesma. Queria entrar no quarto sabendo que tinha decidido o tom da noite antes mesmo de ele chegar, com renda no corpo e coragem suficiente para pedir exatamente o que queria.
Quando Caio abriu a porta, encontrou a casa baixa, a mesa posta para dois e o celular dela virado para baixo. Ele entendeu a regra sem precisar perguntar: naquela noite, pressa nao entrava, mas desejo tambem nao ficaria esperando no canto.
Ela apareceu no corredor usando a camisola e uma seguranca tranquila no olhar. Nao era teatro. Era vontade assumida. Ele ficou alguns segundos em silencio, e esse silencio disse mais que qualquer frase pronta. Marina sorriu porque sabia o efeito que tinha acabado de causar.
Ela se aproximou devagar, abriu o primeiro botao da camisa dele e perguntou se ele lembrava como era namorar dentro da propria casa. Caio respondeu que queria lembrar direito. A mao dele encontrou a cintura dela, quente por cima do tecido fino, e Marina nao recuou.
O primeiro beijo veio manso. Depois, a conversa foi sumindo entre risos baixos, dedos curiosos e aquela tensao boa de quando duas pessoas adultas sabem exatamente onde querem chegar. Ela encostou Caio na parede, deixou que ele sentisse a camisola contra o corpo dele e murmurou que naquela noite ele podia olhar sem fingir educacao demais.
Ela conduzia quando queria, parava quando queria e sorria quando percebia que ele acompanhava cada sinal. O acordo era simples: se fosse bom para os dois, continuava. E continuou. O quarto recebeu os dois com a luz acesa pela metade, a cama desarrumada antes da hora e o tipo de sexo que comeca no beijo e vai ficando mais honesto a cada respiracao.
A camisola, que tinha comecado como recado, virou parte da memoria. Nao pela transparencia, nem pelo corte, mas pela forma como Marina se sentiu dona do proprio desejo enquanto pedia mais perto, mais lento, mais ali.
Antes de dormir, ela recolocou a peca na gaveta sem dobrar. Caio riu. Marina disse que nao adiantava organizar demais uma coisa feita para baguncar a rotina, ainda mais depois de uma noite que tinha deixado a casa inteira com cara de segredo.