A casa finalmente ficou quieta depois das dez. A louça estava guardada, as notificacoes tinham sido silenciadas e a luz do quarto vinha de um abajur pequeno, desses que deixam tudo mais perto.

Ela tinha avisado durante o dia que queria uma noite sem pressa, mas nao uma noite morna. Nada de performance, nada de roteiro. So vinho, conversa baixa e a chance de se olharem ate a vontade ficar impossivel de disfarcar.

Quando voltou do banho, veio usando uma camisola preta, simples no corte e certeira na intencao. Ele sorriu antes de dizer qualquer coisa. Ela gostou disso. Gostou mais ainda do jeito como o olhar dele desceu devagar, parou onde devia parar e voltou para o rosto dela pedindo permissao sem precisar de frase.

Sentaram na beira da cama como quem ainda esta no comeco de um encontro, mas os corpos ja tinham perdido a paciencia. Ela contou que escolheu aquela peca porque queria se sentir desejada sem explicar. Ele respondeu com a mao aberta sobre a coxa dela, primeiro quieta, depois mais firme, esperando o sim que veio no jeito como ela se aproximou.

O beijo veio depois de uma pausa longa. Primeiro leve, quase uma pergunta. Depois quente, demorado, com a boca dela puxando a dele para mais perto e a mao dele aprendendo o caminho por baixo da renda. Ela aproximou o rosto do ouvido dele e disse que gostava quando ele prestava atencao.

Foi isso que guiou a noite: atencao. A forma como ele afastou uma alca com cuidado. O jeito como ela riu baixo quando percebeu que ainda conseguia deixa-lo sem frase pronta. A provocacao deixou de ser pequena e virou pele contra pele, desejo assumido, sexo feito sem pressa e sem distancia entre o que queriam e o que faziam.

Nao havia urgencia. Havia fome. Havia o prazer de descobrir de novo uma pele conhecida, uma respiracao quebrando o ritmo, uma vontade crescendo ate ocupar o quarto inteiro. Ela dizia onde queria mais calma, onde queria mais forca, e ele obedecia como quem tambem estava sendo levado.

Mais tarde, quando a cidade ja parecia dormir inteira, ela ficou encostada nele com a camisola esquecida no chao e um sorriso tranquilo no rosto. Ele perguntou se a noite tinha sido como ela imaginou.

Ela respondeu que tinha sido melhor. Porque, no fim, o que acendeu tudo nao foi a roupa, nem o vinho, nem a luz baixa. Foi o combinado cumprido: dois adultos, uma porta fechada e sexo bom o bastante para fazer a rotina esperar do lado de fora.